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No espaço de investimentos dos objetos de amor, o obsessivo frequentemente dá o melhor de si mesmo, isto é, paradoxalmente tudo e absolutamente nada. “Tudo”, no sentido que ele pode tudo sacrificar; “nada”, na medida em que não aceita perder. Não se trata aí de duas disposições incompatíveis. Muito ao contrário, é nesta medida que se estabiliza qualquer estratégia desejante do obsessivo. De fato, esta estratégia gira essencialmente em torno da questão do gozo do outro, diante do que convém tudo controlar, isto é, neutralizar todos os sinais exteriores. Da mesma forma, para que nada saia do lugar, nada deve gozar, o desejo deve estar morto. Nestas condições, já que o obsessivo não dá nada, ele não perde nada. Em contrapartida, ao menor sinal exterior de gozo observado no outro, ele está pronto a tudo sacrificar e a tudo dar para que as coisas voltem a seu estado inicial. Se a problemática da perda é tão central na lógica obsessiva, é porque remete diretamente à falta. Nada perder, ou seja, evitar ser confrontado com a questão da falta, consiste então em neutralizar o desejo de uma certa maneira, já que este é precisamente constituído e continuamente relançado pela falta como tal. De maneira que o desejo, assim amordaçado, não é mais legislável pela articulação da menor demanda. Compreende-se porque, em nome de um tal dispositivo de neutralização, o objeto desejado é investido de uma maneira singular. Ele está hipotecado, até mesmo consignado, em uma posição tal que ocupa preferencialmente o lugar do morto.
O obsessivo não cessa de instalar seu objeto de investimento amoroso neste lugar magnífico onde, para ser amável e ser amado, o objeto deve se fazer de morto. A máquina desejante do obsessivo só gira a todo vapor nesta condição. Condição única que permite a seu desejo não encontrar nenhuma inquietação. Se o outro está “morto”, ele não deseja; o obsessivo fica assim tranquilo na medida em que o desejo é sempre desejo do desejo do outro. O imperativo constante que o anima em sua relação amorosa se deve ao fato de que o outro não deve nada demandar, pois se o outro demanda, é que ele deseja. Da mesma forma, o obsessivo vai colocar em ato tesouros de energia para que ao outro não falte nada, e não seja portanto levado a sair de seu lugar. O universo do outro deve permanecer assim escrupulosamente ordenado. E através desta ordenação totalitária que o obsessivo controla e domina a morte desejante do outro. Os exemplos não deixam, no discurso do obsessivo masculino, de vir ratificar esta condenação à morte: “não lhe falta nada”, “ela tem tudo em casa”, “ela não precisa trabalhar”, etc. Na medida em que o obsessivo parece se ocupar de tudo, sua parceira feminina é cumulada e nada tem a demandar. Seu objeto está, portanto, presumivelmente ao abrigo de todo desejo. De fato, tais sujeitos mantêm um gosto imoderado pelo encarceramento amoroso. Dispendem tudo, sem moderação, para que o outro resida em uma prisão de primeira classe. O embalsamento e a mumificação do outro não têm preço. É um luxo diante do qual o obsessivo não recua nunca já que nada é bastante bom para que o outro amado seja honrado em seu lugar de morto. Não apenas o outro deve aceitar sua morte, mas ainda seria mal visto o fato de não se mostrar contente com tudo que se fez por ele com este objetivo. O obsessivo é, de fato, muito sensível ao reconhecimento das homenagens que presta ao seu parceiro amoroso. Seria o cúmulo que, assim, ele não se mantivesse feliz em seu estado de morto: seria a mais iníqua das ingratidões. Nesta ocasião, como em outras, o obsessivo está muito preocupado com a justiça. Ora, não existirá maior injustiça que uma mulher que não demonstre reconhecimento diante desta solicitude mortífera que deve tanto agradá-la! De uma maneira geral, a estratégia obsessiva consiste em se apropriar de um objeto vivo para transformá-lo em objeto morto, e cuidar para que assim permaneça. Na maior parte do tempo, somente assim é que poderá manter algum comércio amoroso com ele. A fim de melhor chegar a isso, ele pode igualmente enobrecer seu objeto de amor enfeiando-o, isto é, transformando-o em objeto cada vez mais indesejável, o que garante, de uma certa forma, que esteja bem morto. Além disso, esta destituição desejante apresenta igualmente a vantagem de ancorar a posse imaginária do objeto contra o olhar de um rival sempre potencial. Sobre este ponto, salientamos o recato de certos obsessivos para com seu parceiro. Ele é sempre solidamente reacionalizado por uma série de princípios educativos e mundanos, em nome do bom gosto e da boa aparência. Assim, certas mulheres são condenadas a não descobrir a menor parcela de seu corpo fora das normas do bom decoro. Verifica-se que as normas de bom decoro ideais, para certos obsessivos, significam fechar as mulheres em “armaduras” vestimentas tais em que quase nada se mostre. E por menos que um “rival” ouse ainda lançar o menor olhar sobre esta couraça, teremos, então, a prova de que a mulher é incorrigivelmente venal. Nem todos os obsessivos tomam necessariamente o partido de tornar seu objeto de amor indesejável. Alguns, pelo contrário, são bastante sensíveis à erotização do corpo do outro. Mas esta erotização não é todavia tolerável a não ser que o outro seja relegado ao nível de objeto. Um objeto que se mostra e cujo brilho não pode senão refletir-se imaginariamente sobre o proprietário. No entanto, aqui mais que em qualquer outra situação, o objeto deve então ser totalmente apagado, isto é, radicalmente morto. E com esta única condição que ele pode existir eroticamente. De qualquer forma, o objeto erótico partilha a mesma função que o carro esporte, sabendo que seu papel ideal é a imobilidade, a fim de que através dele se possa admirar seu proprietário. Outros obsessivos apresentam o mesmo tipo de relação para com a fórmula feminina “esportiva”, mas no registro do veículo de competição intelectual. Trata-se de um deslizar metonímico que vai da “carroceria” para o “motor”. Neste tipo de figura, estamos em presença de uma erotização do cérebro do “animal de concursos”, que só tem direito à existência se renuncia, para sempre, a qualquer esperança do lado da sensualidade do corpo. Em todos os casos, o objeto está morto. Mas, cedo ou tarde, o obsessivo não deixará de fazer a experiência crucial de um objeto morto que não suporta mais representar este papel. O próprio desses mortos é que, quanto mais se lhes dá a morte, melhor eles ressuscitam. Inevitavelmente, essas ressurreições, por menores que sejam, sempre anunciam grandes cataclismas no obsessivo, que conhece, então, o amargo gosto da derrota infantil. Nada é tão reconfortante e amável quanto um morto feminino, nada é mais inquietante e odioso que uma mulher viva, isto é, que pode gozar. O obsessivo aguenta tudo, sem fazer contas e sem se poupar, exceto uma coisa: que o outro goze sem ele, sem que esteja ou possa ter estado, de alguma forma, concernido. O outro não pode gozar sem o seu consentimento, sem ser autorizado. O que é radicalmente intolerável é que uma mulher ouse contestar, contrariando todas as convenções estabelecidas, uma situação tão confortável de morte. E o mundo de ponta-cabeça. Um morto não deve gozar. Um morto que goza é um traidor, pois, se goza, é porque deseja. Com que direito? O direito que quer, necessariamente, que o desejo de cada um esteja sempre submeteido à lei do desejo do outro, coisa que o obsessivo, justamente, se esforça em não querer nem ouvir falar. Na existência do obsessivo, o gozo do outro se traduz sempre por uma certa agitação através da qual ele tenta retomar em mãos o controle das operações. Está pronto a sacrificar tudo, para que as coisas voltem à ordem da morte do desejo. Para que o outro volte a ser seu objeto — um morto que não goza — o obsessivo desenvolve uma generosidade sem limites e se prontifica para toda homenagem, todos os esforços, todas as tarefas. Engaja-se nos projetos mais inesperados para reconquistar o objeto que, escapando, envia-o à perdição. Por ocasião dessas estratégias de “recuperação”, o obsessivo pode, aliás, mostrar-se mais histérico que um autêntico sujeito histérico. Pode, com efeito, de forma caricatural, identificar-se com o objeto que ele imagina ser aquele do desejo do outro. É claro que esta subserviência produz, de hábito, o efeito inverso ao esperado. Não é com isso que conquista o objeto. Este reviramento servil tem como consequência afastar ainda mais o objeto, na medida em que lhe demonstra que o obsessivo não quer nada perder. Quanto mais esforça-se em ser tudo para o outro, mais o obsessivo significa a si como nada sendo. Ora, o que importa, para o outro, é que um lugar seja dado para a falta, pois, sem falta, o desejo não se sustentaria. O obsessivo, então, se desqualifica, na própria medida em que não deixa advir o tempo da falta e o lugar que lhe cabe, na dinâmica do desejo. Os reconhecimentos de domínio, todos os consolos e outros pactos de boa vontade nada mudarão. O parceiro feminino não se engana mais com isto exceto quando encontra, nessas tarefas de reabilitação, um terreno favorável para a expressão das vantagens secundárias para a sua neurose pessoal. Aliás, é o que observamos bastante frequentemente em certas parceiras femininas histéricas. Muitas vezes, uma neurose chama outra, no sentido de uma complementariedade dos sintomas.

 

FONTE: Joël Dor Estruturas e clínica psicanalítica